quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Raul



Sempre que me via escrevendo ou lia um de meus textos questionava quando eu iria descrevê-lo em breves linhas. Respondia sempre que não demoraria. Apesar das várias vezes que o sexo ocorria verbalmente, eu jamais saberia descrever calmamente, em casa, na frente de um computador, nada a respeito dele. Temia não conseguir manter fidelidade a tamanho prazer. Nosso gozo, sempre dito, relatado, descarado, parecia jamais encontrar palavras bastantes. Raul era pra mim fantasia indizível, uma verdade delirante. E até mesmo nas mensagens que trocávamos, eu parecia precisar de mais palavras. As pornografias do meu dicionário eram insubsistentes.
Raul. Um nome que eu gostava. Um gosto que me agradava antes mesmo de provar. Era pra ser somente sexo. Mas deixou antes mesmo da despedida. O prazer que se alia a algum tipo de afeto cria um sabor diferente que eu nem me lembrava.
Veio de longe. Outro país. Alemão como meu sobrenome, tinha a mesma descendência que eu. Estava de passagem por aqui. Passou pela minha casa. Passou pela minha cama. Permaneceu na minha vida. Dez dias. Foi o tempo real que tive. Uma vida inteira, foi o que realmente ficou, tinha material suficiente para muitas masturbações solitárias. Minhas lembranças de uma relação tão curta pareciam eternas.
Quando me avisou da sua vinda à minha cidade, eu não esperava. Conversávamos no bate-papo virtual, sem pretensões de um dia nos conhecer. De cara, não sabia se eu queria ou não vê-lo. Minhas amigas me aconselhavam, mas no fundo, eu não precisava de conselho algum.
Fui tomada por um sentimento de desespero, medo e realidade. Como poderia eu, sempre sensata, realista e safa marcar um encontro sexual pela internet com um cara que eu jamais tinha visto, um forasteiro, um turista? Eu não queria ser realista, eu queria justamente perder toda minha sensatez. Ainda que virtualmente, apenas eu me masturbando de um lado e ele do outro, por simples sms na hora do trabalho ou da faculdade, ele tinha o melhor de mim, despertava desejos, sensações que eu já havia me esquecido, e que muitas mulheres jamais sentiram. Nos dias que precederam sua chegada, eu vivia excitada, pensava em sexo o tempo todo, pensava no Raul me chupando.
O primeiro encontro. Um banho quente, óleo perfumado pelo corpo. Indecisão na escolha do lingerie. A porta destrancada. Pelas fotos, era ele mesmo que atravessava a rua. Eu o via se aproximar pela janela e já sentia minha calcinha se umedecer ao mesmo tempo em que uma ansiedade me tomava. Abri a porta olhando para o chão, não houve toque.  Não era compreensível depois de tantas mensagens excitantes, tantas descrições quentes, eu ser tomada por tamanha timidez? Ele me parecia melhor ao vivo, mais quente, com o sorriso mais indiscreto.
Me pediu um beijo, me puxou pra si. Abri as pernas e me encaixei perfeitamente, como se aquele já fosse meu lugar. Senti-lo firme, me tocava, me atiçava. Finalmente minha excitação empurrou a timidez e tomou seu lugar de origem. A pressa, o desespero, o medo, a vontade de me ver nua era tamanha que pouco importou o perfume, os óleos, o lingerie que eu preferi não usar. Estava de vestido e só.
Eram noites intensas, um frenesi, uma excitação permanente. Não queria soltá-lo, não queria parar. Gemia, me contorcia, desejava ainda mais depois de cada orgasmo. Múltiplos. Sequenciais. Vários. Eu jorrava. Erámos incansáveis, indestrutíveis. Jamais havia tido algo tão maravilhoso que dispensava comentário. Mas eu adorava fazê-lo. Nossos olhos falavam por nós, incendiados. Nossos corpos ditavam regras. Orgasmos múltiplos.
Suados, íamos tomar banho juntos e era uma nova transa. Minhas pernas pareciam não aguentar. O banho era interrompido e na pia do banheiro eu me sentava, me apoiava pra não cair. Ele me chupava. Quantas vezes tive essa imagem mental e agora tudo era realidade. Ali estava ele, olhando por cima, querendo encontrar meus olhos, querendo que eu entregasse meu prazer. Ele me olhava e eu podia senti-lo rindo enquanto lambia meu clitóris e enfiava o dedo, realizando todos os meus desejos momentâneos. E quando eu me sentia forte o suficiente, tomada por um desejo insuportável, eu me levantava e me apoiava na parede, de costas pra ele que agarrava minha cintura e começávamos de novo.
E foi assim que conheci Raul. Passamos juntos dez dias, dez noites em claro. Uma química indizível. Dez dias que não têm explicação, uma sintonia que não pode ser desse mundo. Sinto imensa falta dele, da sua língua, do seu corpo, da sua voz, do seu gosto.
Nunca mais o vi, mas sei onde está, e o nosso desejo chega até o outro pela webcam, pelo email, pelo celular. Sonho em vê-lo em breve. Mas enquanto isso não acontece, vou me masturbando lembrando das nossas noites.

Um comentário:

  1. Adorei esse texto. fiquei excitado como quando o fato ocorreu. Muito obrigado pela bela descrição do momento que passamos juntos e pelas palavras de carinho.

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